domingo, 23 de junho de 2019

A língua é o bacalhau da boca

Quando criança ouvia muito minha avó materna dizer que a "língua era o bacalhau da boca" e sempre que ela dizia isso, contava alguma coisa que me fazia entender que o que ela estava dizendo era que o que estragrava muita gente eram as palavras ferinas e o quão hipócritas as pessoas podiam ser. Se vovó estivesse por aqui ainda, hoje ela talvez tivesse que dizer que o bacalhau passou a ser os dedos, dada a facilidade de as pessoas utilizarem seus dedos ferinos para estragar suas imagens diante de milhares nos palcos das redes sociais.

Hoje pela manhã me atentei a uma publicação do jovem estudante Mateus Ferreira, que em 2017 foi brutalmente violentado por um policial militar em um dos protestos realizados contra a reforma da previdência no final de abril daquele ano. Não o conhecia, mas fiz parte da sua luta, sofri com amigos meus que o conheciam e me indignei com o Estado e seus defensores da Polícia Militar que em diversas ocasiões já vi exercerem sua torpe e criminosa "autoridade". 
O movimento estava grande e cresceu ainda mais quando todos se encontraram no cruzamento da Av. Goiás com a Anhanguera. 
Mateus Ferreira era um manifestante como eu que foi às ruas acreditando na resistência e na organização da luta popular em defesa da classe trabalhadora e de um país mais justo... já passava do meio dia e evadi do local poucos minutos antes de a Polícia transformar aquele espaço em uma praça de guerra, quando já iniciara o trabalho de dispersão de manifestantes com bombas de gás. A sensação que tenho em todo manifesto é essa: o protesto só dura até quando a Polícia permite... logo passam a fazer cordão de isolamento, a esconder atrás do escudo e fazer os ânimos se exaltarem pelo cerceamento e jogam bombas e atiram com o que dizem ser bala de boracha... como se não fossem capazes de ferir!  
E no meio da multidão que se dispersava das bombas, Mateus, ao correr foi surpreendido pelo insano, raivoso, criminoso cacetete  do capitão Augusto Sampaio (os adjetivos empreguemos a quem se deve). A força do golpe foi tamanha que Mateus ficou onze dias na UTI e precisou fazer cirurgias para reconstituição facial!
À época, assustadoramente, algumas pessoas buscaram justificativas para o ato criminoso do capitão, imputanto ao jovem agredido que quase perdeu a vida uma culpa: ser manifestante e merecer por isso. Estarrecidoramente, haviam pessoas que faziam piadas, celebrando ao cacetete, lamentando que ele tivesse se partido! Enquanto riam disso, um jovem estava na UTI com o crânio fragmentado, uma PESSOA, um SER HUMANO. E mais terrivelmente, alguns tentavam justificar o fato com a alegação de que o manifestante era um vândalo que quebrara vidraças... vidraças... e vejam o bacalhau das bocas ponderando: não se podem quebrar vidraças, mas crânios sim! Era assustador o caso. 
Enquanto vibrações inúmeras eram enviadas a Mateus e o caso recebia certa repercurssão pelo país, aguardávamos uma posição do Estado. O capitão foi então afastado das ruas (não da corporação) designado a trabalhar no administrativo enquanto andavam-se as investigações. A própria Polícia identificou excesso, o Ministério Público, idem, e o capitão passou a ser investigado por lesão corporal gravíssima e abuso de autoridade... e parte da sociedade, não insandecida, ainda lúcida e que não espera ver aplicada no outro toda violência que o ser humano é capaz, aguardava o desfecho do caso e a justiça sendo feita.

Eis então que essa semana Mateus e todos nós que esperávamos por justiça levamos outro golpe. O atual governador do Estado, Ronaldo Caiado, promoveu o Capitão a Major da corporação. A nós ficou clara a mensagem: a polícia está acima da lei e policiais de má conduta são premiados, condecorados sem o mínimo constrangimento. Em alguns comentários acerca do caso em suas redes sociais, Mateus pontuou inclusive que o governador ignora os trâmites para fazer tal promoção, haja vista que policial que enfrenta algum processo, não pode ser promovido. A promoção além de imoral é ilegal, e no Goiás, que parece terra sem lei, centenas de pessoas voltam a atacar Mateus mais uma vez, fazendo seus grotescos, doentios e fascistas comentários.

Em seu grito de indignação, o estudante desabafou nas redes sociais e foi alvo dos ataques ferinos dos donos de bacalhaus nas línguas e nos dedos. Queiram ou não, bacalhau cheira mal. E muito, tal como muita gente que senti nos comentários cheirarem. Estão aprodrecidas, apodrecendo... e pior, entre elas, algumas que conheço ou conheço gente que conhece. Gente que professa uma fé cristã, mas uma fé cristã das vagabundas, sabe? Daquelas que se Cristo chegar de uma vez, capaz nem ele suportar sem fazer a pessoa passar vergonha. 
Me pergunto o motivo pelo qual as pessoas tem a necessidade de atacar quem já passou por um ataque assim... que motivo as pessoas tem para defender o Estado, o governador que concedeu a promoção e para parabenizarem o agora Major sabendo que o que ele fez não é, em tese, o papel da Polícia. Queria entender o motivo pelo qual as pessoas continuam atacando Mateus e fazendo questão, na página dele, de exaltar Sampaio e seu criminoso cacetete! Essas pessoas, hipocritamente são daquelas que muitas vezes falam que o mundo precisa de mais amor, mais de Deus... 
As vezes penso que essa gente tem amor por bandido! Mas um amor seletivo por bandido. Alguns bandidos que escolhem amar e defender, outros que desejam a morte. E numa proporção descabida, uma visão torpe da dimensão dos crimes. Afinal, vangloriam  o criminoso que espatifa o crânio de alguém e execram um que espatifa uma vidraça, pixa um muro ou rouba um vidro de azeitona! 
Não é a primeira vez nem será a última que veremos gente revelar sua podridão pela boca, ou pelos dedos ferinos... Gente tarada que ama mais parede, cacetete ou propriedade do que gente! Gente doente, injusta, gente fascista.




Alemanha I - preparativos, a viagem de ida (e volta) e dicas dispensáveis.

Embora retardadamente aos fatos, iniciarei hoje uma série de memórias acerca de breve experiência que tive no ano de 2018 durante parte do verão e inverno na Alemanha.

SPOILER: falo nada de importante aqui. É mais uma introdução que em três linhas dava para resumir. Há o relato inicial, uma ou dias dicas e meus anseios e receios com a viagem.

Os preparativos para a viagem começaram ainda em 2017, quando meu esposo foi selecionado para o programa de intercâmbio de doutorado sanduíche naquele país e para lá se mudou por um ano, ficando eu no Brasil.
Inicialmente retomei as aulas de inglês, para que meu inglês tupiniquim desse pelo menos para o essencial aeroportuário e afins! 
Logo a parte burocrática de Polícia Federal, passaporte, informativos a cerca de cartão de vacinas, visto, regras, documentação e etc. 
Eis então, duas surpresas que para essa viagem, facilitariam alguns trâmites: 
Legalmente, sem visto você pode viajar para a Alemanha e lá permanecer até 90 dias no decorrer de um ano. Como em minha primeira viagem ficaria 41 dias, não precisava me preocupar com esse aspecto e foi também uma alívio saber que não precisaria de uma peregrinação para descobrir onde estaria meu cartão de vacinação, hava vista que à época, era dispensado a apresetação dele para adentrar ao país. 
Seguiu-se daí a procura por passagens aéreas, processamento de datas, organização financeira, adequação do casamento à distância (meu deus, eu passei por isso e sobrevivi), enfim, a parte prática da viagem: compra de passagens, roteiros de onde ir e do que fazer, onde hospedar durante as viagens internas que faríamos, quanto gastar, quanto comprar de Euro, quanto o cambio era cruel nas oscilasções, efim! 
Imaginem só a aflição para encontrar bons preços para viagem em período de férias escolares no Brasil, a ansiedade de rever o marido, de ir só em uma viagem longa, de não ter domínio da língua inglesa e não saber absolutamente nada de alemão a não ser entender que algém disse oi, tchau, não, sim e obrigado! (uau, sobrevivi bem a isso também). 

Após encontrar a passagem e marcar a data da viagem, cuja dica de ouro é fazer buscas com  bastante antecedência para inclusive sacar as oscilações e os menores valores praticados para não esperar por algo surreal, sendo importante também ter certa flexibilidade para dias de ida e volta, em 27 de junho de 2018, iniciei a jornada rumo ao Velho Continente.  

Embora houvesse toda tensão de viajar, sobrevoar o oceano, ficar 12h  em um único trecho, pensar como ocupar o tempo enquanto isso, pensar como vai ser lá, como está sendo em casa, enfim, toda a ansiedade que a situação de chegar em um país desconhecido, não sabendo o idioma local, tendo dificuldades no inglês, não sabendo ao certo como seria na imigração, na entrevista, efim, o rumo ao desconhecido, o "se joga", me deixava animada! Animava também pensar que havia feito a melhor escolha de trechos, haja vista ter usado (outra dica de ouro) buscar por voos diretos. Como meu esposo esposo nessa época já estava em Frankfurt, nada melhor que o voo direto Guarulhos Frankfurt. (Outra dica) Também é interessante  buscar companhias que tenham autonomia nos trechos e não necessite operar em parcerias. Na ida em junho com voo direto pela mesma companhia, seja no doméstico Goiania/São Paulo ou no internacional São Paulo/Frankfurt, me senti mais confortável e tranquila do que na volta, em agosto num primeiro trecho, de um voo não direto para o Brasil e operado por uma companhia diferente. 
Na volta sai de Frankfurt para Londres em companhia local que faria a operação do voo e vi que tudo acontece com outra organização que me deixou um pouco confusa, até porque, os espaços destinados à embarque e desembarque em cias. diferentes, são distintos. Outro ponto é o processo de deixada do país: deixei Frankfurt e passei pela imigração, cheguei em Londres tive que fazer entrevista para avisar que estava só em trânsito pelo aeroporto (fui bem recomendada que tinha que deixar Londres até a hora do meu próximo voo), tive que pegar as bagagens, fazer um mega tour com elas até chegar no embarque internacional e fazer novo despacho. 
Enfim, a experiência serviu para dois aprendizados: comprar passagens com a mesma companhia operando os voos ou comprar com intervalos de embarque maiores para que (tenha tempo de dar mancada) não precise apavorar-se receando atrasos. 

Enfim, após sair de Goiânia por volta de 12h, cheguei em São Paulo fiz uma visita a meu irmão, cunhada e sobrinha enquanto aguardava o voo para Frankfurt, que só saia proximo da 00h. Durante o voo foi tudo tranquilo, companhia aérea latina, com português como primeiro idioma para deixar o frio na barriga da imersão em outro idioma para mais logo. Chegando à Frankfurt, na imensidão daquele aeroporto, demoramos uns 25 minutos entre pouco e parada da aeronave. Desembarque, depois de "aceppt" alguma coisa escrita em alemão acerca da rede wifi local contatar aos familiares e encaminhar para a imigração. A fila estava longa. Enquanto isso, eu, que vivia assistindo programas de TV sobre aeroportos e tretas em que a polícia observava à paisana os transeuntes, esperava pensando que via várias vezes nos programas a polícia abordar pessoas que viajavam sozinhas e tinham atitudes suspeitas, se eu estava tendo alguma atitude suspeita! E já imaginava, ansiedade das brutas, se algum agente me abordasse e eu não sabendo falar alemão nem inglês direito... e a fila ia... Até que chegou minha vez e me encaminhei ao guichê, insegura, mas respondendo ao agente a saudação em inglês já indicando que não falava alemão! Queria ter dito isso em alemão... mas o treino não foi suficiente para eu soltar um sonoro "entschuldigung, ich spreche kein Deutsch"... simplesmente não sai até hoje! E então, respondendo à breve entrevista, engasgando com questões sobre a volta (pega de surpresa com a pergunta sobre os trechos de volta) e admirada com a educação, cuidado e paciência do agente (aliás, nas estadias pelo país me caiu por terra aquela história da grosseria do alemão), vi meu passaporte sendo carimbado e eu ser saldada com um bem vindo na língua local! 
Daí, a essa hora já explodiam em mim duas partes: o coração, em rever em alguns minutos meu esposo e a bexiga, cheia, pela ansiedade e pelo tempo de fila. 
Na saída do embarque lá estava ele (me aguardando com chocolate e girassóis, metira!) me aguardando já há algumas horas e também cheio de saudades. Encaminhamos para casa ele já fazendo as vezes de anfitrião e me dizendo coisas básicas para saber sobre o trasnporte coletivo e mostrando alguns pontos entre o aeroporto e a casa onde residia. 
Lá chegando, morta de cansaço pela extensa jornada, tomei um banho, deitei e dormi um pouco, enquanto aguardava-o preparar o jantar e já bastante admirada pelo adiantado da hora e o sol brilhar como se fossem quatro da tarde...

Mal sabia que ainda teria um bom pedaço de noite sob a luz do dia e um belo por-do-sol as 22h e que isso seria providencial para aproveitar ao máximo os próximos 39 dias ao lado de meu bem...


sábado, 15 de junho de 2019

À César o que é de César e a Rhuan o que é de Rhuan


              Há umas três semanas me foi, terapeuticamente, dada a tarefa de retomar os escritos por aqui. Os planos vão de vento em popa. A efetivação é que ficou travada e retomo hoje, a exteriorizar aquilo que retenho sobre diversas causas. E isso, também acabou se tornando uma dificuldade, haja vista, a grandeza de coisas que me afligem e que tenho retido, principalmente pela velocidade com que acontecem. É como se, em cada turno, pelo menos um 7x1 diferente tivesse que ser processado (embora eu confesse, ter me divertido com aquilo)  que mal dá tempo de processar e já aparece outro.

Essa semana me chamou bastante atenção o terrível caso do gatoro Rhuan Maicon, brutalmente assassinado, esquartejado e queimado na tentativa de ocultação de cadáver. Me assustaria muito mais se as pessoas achassem normal. Com todo respeito póstumo a Rhuan e aos familiares que se importavam com ele, as pessoas passariam a achar normal tal atrocidade se Rhuan fosse um pouco mais velho e tivesse se tornado criminoso, mesmo que de delitos parcos. Muitos achariam normal, como tantas vezes já vi, observarem "vingadores" fazerem atrocidades e uma multidão dar likes e comentar que mereceu. Nunca, jamais, ninguém merece tal tratamento, mas muita gente acredita que alguns, devido à alguns de seus comportamentos, merecem e é bem pouco.

Contudo, o caso a comentar dessa terrível tragédia não é a hipocrisia e comoção seletiva das pessoas, mas as manifestações de vozes que buscaram justificativas grotescas para que o caso não tomasse, como febre, as páginas de jornais, as hashtags com o nome de Rhuan, ou que seu rosto estivesse estampado em todos os perfis! "Afinal, fizeram isso quando um cachorro foi assassinado" foi o que vi por muitos cantos... 

E claro, algumas pessoas não podiam perder a oportunidade de usar o trágico fato para depreciar o Todo em face do Particular. Vamos primeiro ao particular: Rhuan assassinado no dia 31 de maio por sua mãe que teve como cúmplice nos crimes, sua companheira e à crueldade criminosa das duas acrescenta-se ainda, denúncias sobre tortura e mutilação da criança em anos anteriores ao fatal crime. O caso foi tratado de modo simplista quanto a motivação: Rhuan não estampou as manchetes e não tomou as redes sociais por ser mais um caso de evidência da "esquerda" (o universal) ser protegida! De proteger-se a população LGBTT pois as "mães" do garoto, homossexuais, não deveriam ser expostas para proteger "as pautas da esquerda". A pequenez do raciocínio me deixou tão estarrecida quanto a crueldade das duas mulheres.
Imaginem as sinapses se fazendo na cabeça dos que assim argumentaram... "mãe sapatão, odeia hômi, ah é feminista, cortou o pipiu do menino e matou ele porque são feminista, de esquerda e porque o mundo é de esquerda a mídia não vai falar disso pra proteger a esquerda". Pior é que se dá pra chamar isso de raciocínio, tanta gente achou de falar do caso do Rhuan, dar a visibilidade que a "mídia esquerdizada" não deu, reprodizindo esse raciocínio! 

Não vi comentários acerca da pouca veiculação das reportagens que buscavam motivações para o crime irem além de reprodução do preconceito contra a esquerda e contra homossexuais, como se todos povos do mundo, de esquerda e também homossexuais, fossem capazes de um crime assim ou o aceitasse e aceitassem que duas mulheres que fazem isso, merecem redenção por serem homossexuais. E claro, a reprodução desse preconceito odioso, não é nem de longe tão dolorido, não abre em mim uma chaga tão grande quanto pensar num garotinho ser tão maltratado assim por duas pessoas inescrupulosas, fanáticas em seus delírios (Particular) e que não representam o Todo! 

Quando soube do caso Rhuan, busquei ler sobre o assunto e me deparei com uma coisa tão assustadora como a morte do garoto, que foi a data do fato e que mais de uma semana depois é que tomei conhecimento. Me perguntando o motivo, meu raciocínio, talvez não correto, e talvez alguns ao lerem se questionarão se de fato é um raciocínio, levou-me, imediatamente, ao que no dia seguinte ao assassinato de Rhuan vi em tudo quanto é meio de comunicação: a acusação de estupro que pesava sobre o jogador de futebol Neymar. E via piadinhas, fotos vazadas, frases sem nexo e pessoas rindo disso... E via julgamentos, advogados de defesa e de acusação... e pessoas rindo disso! E pessoas e mais pessoas envolvidas no caso de uma "grande estrela" sendo acusada de um crime e o reboliço que tudo isso causou... e via esse assunto tomando tudo que é espaço, real ou virtual... e mais julgamentos, mais culpabilização da mulher, mais propagação de machismo patriarcal, mais pessoas acusando a suposta vítima e mais pessoas defendendo o suposto agressor, Neymar. Às vezes até imaginava que as pessoas, gigantesca maioria em defesa do jogador, estavam lá, junto com ele e a garota no quarto, tanto que partido tomavam em afirmar que ela estava com as intenções piores... e nas semanas seguintes, o que tomou os jornais e as redes sociais girava em torno desse assunto, uns agradeceram a ele, pois assim, o governo Bolsonaro ficou escamoteado, até pelo menos, o vazamento das informações jornalísticas do Intercept nesse último final de semana.

Daí podem pensar comigo... se aqui, onde eu queria tratar do caso Rhuan, uma criança pobre, vítima de maus tratos, tortura, assassinato e vilipendiação de cadáver, pelo menos outras três figuras públicas apareceram imaginem nas proporções daqueles tarados por redes sociais e notícias bombásticas... imaginem pessoas que gostam de vazar tudo que é intimidade de celebridade, de comentar, de participar da vida de tais pessoas por mais medíocre que isso seja? Gente, o povo vazou foto do Cristiano Araujo nu, morto no necrotério! O povo vazou foto do cadáver do Gabriel Diniz! o povo vaza foto de tudo que é notícia de celebridades e concorrer com isso, mídia nenhuma é capaz! E mais uma vez, nomes de "celebridades" tomam essas páginas em detrimento do nome de Rhuan! E assim caminharemos. Pra quem tem tara sobre a vida alheia, um garoto ser assassiando e esquartejado é muito menos notícia e muito menos digno de voz do que um jogador de futebol famoso, rico acusado de estupro! E isso se deve não à esquerda escamotear o fato por conta da orientação sexual da mãe, mas sim, à propensão que temos em tomar partido de quem é grande e dá visibilidade e likes!

O cachorro do Carrefour virou nóticia porque não houve nenhum fato medíocre ou bombástico invadindo o espaço... não houve especulação sobre a vida de algúem rico, importante, só o básico e corriqueiro... aí um passarinho  de qualquer artista que fosse atropelado viraria notícia e alguém produziria a comoção em massa. Alguém sugeriria a hashtag, "alguéns" tantos outros seguiriam a onda pra ficar famosinho... e convenhamos, infelizmente uma hashtag "alguma coisa neymar" faz infinitamente mais sucesso que uma  #rhuanvive. 


Ps. Lendo notícias acerca do processo, o delegado que investiga o caso comentou forte influência de fanatismo religioso na mãe. Ah de religião Cristã, inclusive! vão dizer que é um ataque à fé ou entender que nem todo mundo é um fanático religioso que distorce o que dizem as escrituras?



terça-feira, 7 de novembro de 2017

Quem nunquinha quis ser menino?

Quando eu era criança, tinha cabelo de menino. Hoje chamam corte Joãozinho e já foi moda entre as celebridades. No início dos anos 90, não era!
Mamãe gostava daquele jeito e dizia: "quando você crescer e conseguir cuidar do seu cabelo, deixa grande, sem pentear, curto, preso, com piolho, do jeito que você quiser".
Não que eu gostasse... Contudo, via as vantagens que aquele cabelo me trazia, pois facilitava o passe para muitas brincadeiras e jogos "de menino", sobretudo em locais em que os meninos não me conheciam! Jogos e brincadeiras dos quais nunca fui proibida nem pela mamãe ou pelo papai de fazer.

Gostava e me identificava com a "liberdade" que os meninos tinham e quando chegava num espaço diferente, com crianças diferentes e via as meninas brincando e os meninos brincando, sempre achava mais atraente a brincadeira dos meninos. Talvez fosse já pelo medo da rejeição das meninas quanto ao meu cabelo. Mas talvez fosse por perceber que as brincadeiras "de menino" eram mais divertidas mesmo. Afinal, correr atrás um do outro, chutar coisas, ver quem subia mais rápido no trepa trepa, atravessava mais rápido a escada horizontal ou quem não saía tonto do gira-gira rodado à toda velocidade, construir fazendas e "dirigir caminhão", sempre me parecia mais divertido do que brincar de salão de beleza imaginário, passar anel, boneca, casinha, cozinhadinha etc. embora também brincasse disso, sabendo hoje que num tempo muito mais curto, pois lembro que rapidinho já não queria mais.
Lembro de uma alegria bonita quando num Natal ganhei uma bola e minha irmã, mais nova um pouquinho que eu, ganhou uma boneca com cheiro de fruta. Como fui feliz com meu presente! Não entendia, mas sentia-me mais livre e sem a preocupação de manter o cheirinho da boneca.


Recordo-me que uma vez, numa festa junina entrei na fila pra subir no pau de sebo e pegar a prenda... eu estava de roupa rosa, um rosa chock que eu gostava e capaz que isso me entregou! Um menino falou no meio dos outros que uma menina queria subir: todos me observaram, analisaram e passaram na minha frente na fila me deixando por último. Deixei a fila e fui pra barraca de pescaria. Aprendi ali algumas lições... Ali entendi que me identificava com parte do que era divertido no universo masculino, mas que nele, não me cabia. Entretanto, fazer parte das brincadeiras, achar -me "menino" muitas das vezes quando brincava com a molecada me deixava satisfeita. Outras vezes, me deixava chateada por muitos que me conheciam me julgarem e, ignorantemente, me chamarem "macho-fêmea"! Não sabiam o que eu sentia. Não sabiam que internamente, muitas vezes me identificava com o masculino...

Pra que toda essa memória? Pra "bocozada de mola" que hoje me conhece saber que em alguns momentos da vida me identifiquei com o gênero masculino, brinquei com menino, joguei bola, brinquei de carrinho, apertei campainha, subi e pulei muro, fiz competição de cuspe, perdi na distância de mijo e isso não mudou em nada minha vida a não ser ampliar minhas vivências e me fazer perceber as diferenças entre gênero masculino e feminino, sejam biológicas ou sócio-culturais.
Atualmente muito se fala em "ideologia de gênero" - sem saber o que é isso - e em a escola querer ensinar as crianças a virarem homossexuais - sem conhecer escola. Queria saber de onde esse povo tira isso! Aliás, eu sei de onde tiram...


Só não consigo acreditar que as pessoas não são capazes de perceber que falar sobre o que existe e da necessidade de respeitar cada um em sua identidade de gênero e também em orientação sexual não é "criar" homossexuais. Não acredito que as pessoas, inclusive que se autodeclaram educadores, não são capazes de perceber que estar com meninx, brincar com meninx, fazer coisas de meninx, identificar-se com o universo infantil masculino ou feminino, por dias, por um período ou pela vida toda, não altera em nada a orientação sexual.



Me é custoso entender ainda como muitas pessoas não são capazes de perceber que a pessoa já se encontra afetivamente ligada a um indivíduo do mesmo sexo, se vencer o preconceito, a discriminação, a intolerância causada pela heteronormatividade e não for assassinada por homofóbicos, poderá ter o direito de viver intensamente suas relações homoafetivas.














segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

GOIÂNIA PARA TURISTAS I

O QUE FAZER EM GOIÂNIA - PONTOS TURÍSTICOS: Praça Cívica.

Hoje pela manhã me deparei com uma matéria escrita ainda em 2014 sobre Goiânia. Uma turista de passagem pela cidade narra sua dificuldade para encontrar os pontos turísticos da capital goianiense e eu, como uma boa goianiense do pé rachado, não me irritei em nada com as verdades que a moça diz. Ela não inventou nada em seu relato. A intenção deste e dos posts a seguir é oferecer algumas dicas para quem procura pelo que fazer na cidade, em passeios turísticos e sem maiores badalações. Não conheço nada das baladas da cidade (risos).

Em 1933 foi lançada a pedra fundamental para a construção da cidade de Goiânia, estrategicamente planejada para tornar-se capital administrativa e política do Estado de Goiás. 
É difícil falar de Goiânia e seus pontos turísticos, sem mencionar aspectos históricos, politiqueiros e eleitoreiros da capital, contudo o exercício será feito. E vou riscar pra indicar onde estiver, caso não queiras ler, risos. 

Parte do patrimônio arquitetônico do Centro da cidade é "preservado", evidenciando uma arquitetura com influências da Art Deco que estampa fachadas de construções datadas, principalmente, da década de 1930 e 1940. Por  vezes algumas já foram demolidas e/ou abandonadas, e por variantes inúmeras, reconstruídas e/ou restauradas. Algumas edificações são consideradas cartões postais da cidade, com rica carga histórica e política , e claro, foram transformadas em pontos turísticos da Capital.

Nesse primeiro tour trataremos da Praça Cívica, oficialmente, Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, onde a pedra fundamental da cidade foi lançada e de onde saem as principais avenidas do Centro da cidade: Av. 85, Rua 83, Av. Tocantins, Av. Goiás, Av. Araguaia, Rua Dona Gercina Borges Teixeira, Rua 10 - Av. Universitária e importa citá-las por serem vias de acesso à outros pontos turísticos da cidade...

Distante entre 9 a 10 km do aeroporto e a 2,5 km do Terminal Rodoviário, no Centro, está a Praça Dr. Pedro Ludovico Teixeira, mas se for perguntar a algum goianiense, pergunte pela Praça Cívica! Muitos de nós conhecemos as coisas por denominações diferentes das oficiais e a moça que inspirou essa série de postagens, falou bem sobre isso... Na Praça Cívica há um concentrado de edificações Art Deco: Coreto, Palácio das Esmeraldas - residência oficial do governador -, Procuradoria Geral do Estado, Tribunal de Contas do Estado, Centro Cultural Marieta Telles Machado - que abriga o Cine Cultura e o Museu da Imagem e do Som - o Museu Zoroastro Artiaga, etc., além de esculturas - o Monumento à Goiânia, conhecido mais como Monumento das Três Raças é o de maior destaque, ocupando o centro da praça - e fontes luminosas, restauradas e postas em funcionamento como no projeto original da década de 1930 na última "reforma" da Praça Cívica, (re)inaugurada em outubro de 2015 e finalizada quase um ano depois, sim, em Goiânia e no Goiás inteiro tem disso, os caras inauguram obras inacabadas. E pelo que indica algumas pesquisas rápidas, em breve o governo estadual vai também dar uma "revitalizada" na praça novamente...

A Praça Cívica ainda abriga no decorrer do ano festividades e exposições diversas, chegando a grande público no Show de Natal, em que, a Praça é transformada em palco de festividades natalinas, ecoando uma deliciosa algazarra com sons de carrossel, risos dos infantes e aquele cheirinho de pipoca inebriando o ambiente. Aos domingos, desde 2014 a pista do anel interno da Praça é fechado aos automóveis, abrindo espaço para o ciclismo e o skate.

Além de conhecer e fotografar, na Praça Cívica é possível visitar (se tiver aberto, risos):

No Centro Cultural Marieta Telles Machado:

* Cine Cultura: com programação especial, filmes bastante premiados e mais distantes da pegada comercial, sedia alguns festivais de tempos em tempos. Sessões e programação com filmes vespertinos (durante a semana) e noturnos aos fins de semana e feriados. Programe-se pelo site: https://cineculturagoias.wordpress.com/
* Museu da Imagem e do Som: Particularmente não conheço, visitas agendadas. Conforme site da Secult horário de funcionamento nas segundas é das 14h as 17:30 e terça a sexta das 8h as 12h e das 14 as 17:30. Para consulta ao banco de dados e acervo fotográfico e fonográfico, visitas devem ser agendadas previamente.Telefones (62) 32314644 - 32014673. Maiores informações: http://www.secult.go.gov.br/post/ver/139327/museu-da-imagem-e-do-som-de-goias

Museu Zoroastro Artiaga: Estive em duas ocasiões querendo conhecer o museu, mas estava fechado mesmo sendo dia e horário de funcionar.

Funcionamento: Terça a sexta, das 8h as 18h; sábados, domingos, feriados das 9h as 15h. Maiores informações: http://www.secult.go.gov.br/post/ver/139325/museu-zoroastro-artiaga


                                  Palácio das Esmeraldas, residência oficial do governador


                                                             
                                                       Centro Cultural Marieta Telles




Museu Zoroastro Artiaga













Antiga "Chefatura de Polícia" - Cadeia














Coreto

Escultura em bronze de Pedro Ludovico Teixeira, arquiteto de Goiânia, esculpida por Neusa Moraes.












Escultura Monumento à Goiânia - "Monumento das Três Raças" - esculpido em bronze e granito por Neusa Moraes.










quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A FALÁCIA DA ESCOLA SEM PARTIDO

Pra começar, o termo ESCOLA SEM PARTIDO é mal intencionado e os que o concebem sabem bem disso. Talvez não saibam aqueles que reproduzem-no, que ouvem defesas mal intencionadas dos que enfrentam uma escola que, de fato ruma para ser o que escola deve ser: promotora de conhecimentos sistematizados, promotora de debate e passível de contribuir para a reflexão a cerca das estruturas da sociedade, para a consolidação da autonomia e da liberdade, abafadas pelo capital.

A prática pedagógica é em si uma prática social política. Não é necessariamente partidária, mas não é apolítica. E no quadro de uma prática social política, colocar a par dos acontecimentos em diferentes perspectivas e frentes é fazer educação.

Sabendo do caráter apolítico da prática pedagógica aqueles que querem frear os avanços que temos feito na educação criou-se toda uma mídia que vem conseguindo convencer cada vez mais pessoas que "há uma ditadura de esquerda no ensino público e que as nossas criancinhas estão sendo corrompidas por uma escola psicopata, sem valores, amoral e esquerdista"...

Vamos por partes... Politicamente, compreendo o poder da Pedagogia Crítica nos avanços que temos e não dá pra explicar isso sem falar sobre luta de classes e ensino público. O ensino público no Brasil, a escolarização para a classe popular, começa a receber investimentos no início do século XX em virtude da necessidade de formação de mão de obra, de força de trabalho. Nesse sentido, temos uma prática pedagógica já repleta de interesse político/econômico: formar trabalhadores para o mercado de trabalho, para tanto uma prática pedagógica que introduziria e faria incorporar técnicas a serem aplicados no mercado de trabalho. Uma educação voltada ao fazer irrefletido e que é considerada pela parte detentora dos meios de produção, essencial, portanto, nada apolítica, nada apartidária. Assim, a educação, da forma como se processa, tem estado a serviço, digamos, de um partido, um partido da classe detentora dos meios de produção que necessita manter a estrutura da sociedade, precisa forjar trabalhadores que pouco reflitam sobre questões para além de conteúdos mecanizados, fragmentados e instrumentalizados.
E, vendo se processar uma perspectiva educacional crítica, progressista, voltada a levar a classe trabalhadora a ir além do que a classe burguesa considera necessário para formar suas "máquinas", a burguesia viabiliza seu projeto de manutenção da estrutura de exploração de força de trabalho que reproduz seus interesses, dentre outras maneiras, "criando" um projeto, uma prática pedagógica baseada na falácia de neutralidade política, A FALÁCIA DA ESCOLA SEM PARTIDO. E pior, pelos meios mais vis e promotores de ódio convence parte da sociedade que a escola precisa conservar uma neutralidade que nunca foi sua.

Conforme Saviani (1983) a escola é um instrumento de reprodução das relações sociais e, reproduzindo a sociedade capitalista, reproduz a dominação e exploração característicos dessa sociedade, apresentando-se como tendente à conservar o antagonismo de classe. Contudo, o filósofo pontua que uma educação que se baseie em uma sólida fundamentação teórica para a compreensão da realidade social, é capaz de transformar as bases da sociedade, formando o homem para “torná-lo cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação a fim de poder intervir nela transformando-a no sentido da ampliação da liberdade, comunicação e colaboração entre os homens” (SAVIANI, 1980, p. 52). Para tanto, ainda segundo o filósofo, a escola deve possibilitar a formação do homem livre, democrático e autônomo, exatamente o que não é efetivado numa sociedade pautada pelo capital e numa escola que atenda aos interesses da classe burguesa. 

Para isso, não se pode processar apenas um ponto de vista, furtar-se do debate e da liberdade de ideias baseadas no conhecimento historicamente construído pela espécie humana, não se pode negligenciar ponderar o pensamento conservador e o progressista. No contexto da Escola sem partido, professor que em sala de aula, ponderar as coisas, elevar o contraditório, instigar ao pensamento dialético, emitir seu pensamento e ter formação capaz de levar o estudante a ser além de uma máquina reprodutiva dos 'valores' da sociedade burguesa e que faça frente à conservação da sociedade capitalista, é tomado como tendencioso e promotor de uma escola partidarista, gravemente promotor da "doutrinação esquerdista". Contudo, aquele que não o faz, promove para nós aqui, a manutenção de uma sociedade que inventa um ensino neutro numa escola que não é e nunca foi neutra, apolítica e muito menos, apartidária...


Para informações sobre o assunto: http://www.anped.org.br/search/node/ESCOLA%20SEM%20PARTIDO 




sábado, 17 de setembro de 2016

PRECISAMOS FALAR DE PROGRESSO I

A morte do ator Domingos Montagner tem se relevado cabal para algumas pessoas chamarem atenção ao fato tão aclamado por movimentos sociais em relação à construção de usinas hidrelétricas. É lamentável que alguém 'importante' tenha de morrer para que algumas coisas possam vir à tona e, pelo menos para um pouquinho mais de pessoas talvez enxergarem algumas coisas...
Em 2009 conheci parte do São Francisco na região de Bom Jesus da Lapa e me encantei em ver a beleza do rio, mesmo com águas barrentas devido ao período em que fui... na ocasião, participei do Congresso de 30 anos da Pastoral da Juventude do Meio Popular que teve seu encerramento com uma gigantesca Romaria em defesa do Rio São Francisco. Paradas faziam os presentes, congressistas, população da cidade e população ribeirinha a refletir e a denunciar impactos do projeto de transposição do São Francisco bem como da implantação de usinas hidrelétricas!

O fatídico de Montagner levanta a prerrogativa da alteração das correntes, vazão das águas, elevação repentino do nível e do volume de água de regiões próximas à usinas hidrelétricas e claro, causadas por usinas hidrelétricas. Vimos em entrevistas, reportagens de jornais e revistas sobre o caso em que autoridades e ribeirinhos comentavam sobre a periculosidade do trecho onde o ator se banhou. Contudo, cabe pensar: com o doce e convidativo nome de Prainha do Canindé de São Francisco, sempre foi um local de alta periculosidade? Ainda não consegui informações sobre isso. No momento, tudo que se lê sobre o assunto pontua que É trecho perigoso, e não encontrei ainda informação se ANTES da usina, o trecho ERA de tão alta periculosidade. 
Fato é que, diversos meios de comunicação de massa afirmaram após ser encontrado o corpo que o local é muito perigoso e não recomendado para banho "devido à forte correnteza provocada pela vazão da Usina Hidrelétrica de Xingó". 

Não que antes de hidrelétricas ninguém morresse afogado, ninguém fosse arrastado pelas correntes... Contudo, o progresso, a geração de energia, pensado a partir da construção de energia hídrica causou a morte do ator e, dentre outras, pois Montagner não foi a única vítima da região, tampouco correlata à essa única usina. Em buscas pela rede, facilmente identificamos tantas outras vítimas, que não viraram notícias internacionais, mas que perderam a vida, ou estão perdendo-a aos poucos, nas proximidades de usinas hidrelétricas do Rio São Francisco, do Rio Tocantins, do Rio Corumbá, do Rio Paranaíba, do Rio Xingu, entre tantas outras... Xingó, Tucuruí, Furnas, São Simão, Belo Monte, entre tantas outras causam, cultivam diariamente a morte. Quando fala-se da morte de turistas, geralmente as associações em noticiários locais são acrescidas das informações 'próximo à usina onde a água subiu repentinamente, ou, onde as turbinas provocam aumento da correnteza'... Contudo, não são apenas turistas que perdem a vida nesses locais. Potencialmente, perdem a vida menos turistas  do que as populações ribeirinhas locais, do que árvores, peixes, enfim, o ecossistema. E entendam, não estou me "lixando" pelas vidas dos turistas e dos 'importantes', mas levando a reflexão das que se perdem e que não viram notícia... 

Nas proximidades onde Montagner foi encontrado morto, ribeirinhos perderam a vida para a "maré" do Rio São Francisco, que tem o volume de água aumentado de uma hora para outra provocado pela abertura das compotas... perderam a vida para força da correnteza que arrastou seus barcos, meios de garantir o pão de cada dia... perdem a vida tendo de deixar suas casas situadas em locais que serão alagados e viver onde não tem a mínima noção de como sobreviver... também perderam a vida milhares de peixes, que não conseguem nadar contra a fortíssima correnteza na época de piracema... vai perdendo a vida o ecossistema dali... estão perdendo a vida, famílias indígenas que ali vivem e que, com o ecossistema se alterando, perecerão em breve...

Igual modo perdem a vida indígenas, ribeirinhos, militantes e ativistas que são contra a criação de Belo Monte, no Pará ou em outros locais espalhados pelo país... Em leituras sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte choca a naturalização com a qual uma engenheira trata a TROCA DE VIDAS PELO PROGRESSO...

A engenheira Brígida Ramati em entrevista ao G1, datada de 2010, afirma que Belo Monte é necessária para atender a demanda de energia elétrica no país. E a meu ver, justifica que o preço a pagar-se é baixo... "A energia gerada deverá atender a uma área muito mais ampla do que a área de impacto direto pois a energia é um dos insumos mais estratégicos para o crescimento de uma região". O grifo é meu. Para dizer que, em outras palavras, soa: os benefícios satisfarão mais pessoas do que as vidas que irá destruir... é como dizer: se mil serão beneficiados, não importa morrerem dez e alguns peixes... 
Daí alguns podem me questionar: o que fazer?? precisamos de mais energia mesmo... e levo mais uma reflexão: quem precisa?  O progresso, a indústria... A produção precisa para fazer tanto daquilo que faz e nos induzir ao consumo, que demanda maior produção e novo consumo... nosso estilo de vida precisa. É nosso modelo de sociedade que exige que se gere cada vez mais energia para sustentar as luzes acesas, as fábricas funcionando e nossos bens de consumo... nossa vida tão cheia de regalias, confortos e tecnologias que não nos permite ver quem inicial e diretamente já paga o preço por isso.



sexta-feira, 22 de abril de 2016

SOBRE BOLSAS E FERRAMENTAS

É muito fácil dizer que alguém não quer trabalhar. Mais fácil ainda é culpar programas sociais assistencialistas, que, embora elevem renda, auxiliem a vida das populações empobrecidas, tiram-nas da miséria extrema etc. não alteram a estrutura social, não alteram o modo produtivo que produz desigualdades sociais, pelo desinteresse pelo trabalho.
Difícil mesmo é compreender que trabalho, envolve realização pessoal, concretização de ideias próprias, realização de si por meio de uma atividade concebida e executada em todas as suas etapas, cujo produto é repleto de peculiaridade.

 Vendo pela rede crítica ao Bolsa Família - minha crítica já foi feita acima, não altera o modo produtivo - algumas questões me vieram a cabeça.


É, até porque, só com Bolsa Família não dá pra sustentar. Mas talvez a princípio fuja ao leitor que esta bolsa, repleta de ferramentas diferentes, representa também a necessidade de saber manusear tais ferramentas. Saber empregá-las em alguma atividade. E que isto, necessita no mínimo, mínima formação.
Para que eu use um martelo e sustente minha família com ele, preciso ir além de conseguir pregar pregos ou arrancá-los com a parte dentada.
Para que eu utilize uma furadeira e sustente minha família com ela, preciso informações mínimas acerca da superfície a ser 'furada', para saber que broca usar, que pressão exercer...
Para usar chaves, alicates, serrotes, e sustentar minha família preciso antes ter no mínimo noções espaciais, saber sobre texturas, espessuras...
Para usar uma trena e sustentar minha família, não basta saber ler números e estendê-la sob uma superfície. Preciso no mínimo, noções de cálculo básico para somar comprimento, multiplicá-los, dividi-los, calcular área, perímetro... enfim, não me basta carregar a bolsa, preciso ter conhecimentos mínimos para utilizá-la para sustentar minha família.
Se eu não souber utilizá-las, esta bolsa não me serve para sustentar minha família. Portanto, se eu não sei fazer algo, não faço não por preguiça, mas por desconhecimento. Que tal pensarmos em "bolsas" que possibilitem o acesso de pessoas à formação? E não digo apenas que as ensine a apertar parafuso, ou furar parede. Mas que as ensine também porque, a uns fica a tarefa de conceber uma broca x para furar tal superfície, a outros produzir tal broca e a outros, enfiar na tomada a furadeira e fazer o furo.
Que ensine o motivo pelo qual tal bolsa retrata muito bem a fragmentação do trabalho? A separação entre os que pensam e os que executam?
E ainda, uma formação capaz de explicitar porque induz-se à ideia de que os "sustentados" pelo Bolsa Família, tem de exercer profissões única e exclusivamente na execução de trabalhos com ferramentas...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

OS "COMPRADOS" PELA LEI ROUANET


Uma das coisas que não me descem é o mimimi sobre artista que defende o governo porque recebe dinheiro da Lei Rouanet. 

Não sou obrigada a ver e ouvir coisas sem nada dizer e vejo por aí proliferando a desinformação de que a Lei Rouanet foi criada para o PT comprar artistas. 
Primeiro devemos saber que a Lei Nacional de Incentivo à Cultura (Lei nº 8.313/91), pra começar, não foi criada por uma bancada petista, menos ainda aprovada por um presidente petista.  A lei foi aprovada em 1991, no governo Collor. Permaneceu no governo FHC, igualmente no governo Lula e Dilma.

Vejo também postagens por aí dizendo que artistas recebem dinheiro do governo para desenvolver seus projetos. E ainda, acusações de que artista tal, defende o governo para não perder o dinheiro que ganha... Gente, bobagem tem limite. O governo não 'dá' dinheiro para ninguém desenvolver projetos culturais. Para que algum artista consiga alguma grana para desenvolver seus projetos artísticos (não vamos aqui discutir se são arte ou produto) primeiro ele precisa escrever um projeto, de acordo com o edital. Posteriormente, os projetos são submetidos ao Ministério da Cultura e lá aprovados ou não para a CAPTAÇÃO DE RECURSOS. Um projeto apto à captação de recursos não significa que artista X receberá algum recurso. Sairá em busca (ele não, provavelmente) de empresas que tenham interesse em PATROCINAR seu projeto. Assim, uma empresa interessada em DEDUZIR percentual de seu IMPOSTO DE RENDA, provê os recursos ao artista. Portanto, não é dinheiro público que vai para os artistas. E aí você pode até argumentar: o dinheiro dos impostos é dinheiro público, logo, os artistas recebem dinheiro público. Calma lá!!! Dinheiro que ainda não foi para os cofres públicos (e bem sabemos que muitas empresas e até pessoas físicas dão seus jeitinhos de não fazer com que a eles cheguem) então, não é dinheiro público. 

Outra coisinha a pensar... voltemos à 1991 e porque empresas teriam interesse em financiar projetos artísticos. Ah, é porque querem o bem da cultura no país, né? 
E vamos para 2016, por que ninguém se pronuncia para a revogação de tal lei? Ahhh deve render um bom retorno às empresas! Afinal, se eu por ventura enviar um projeto ao MinC, tiver aprovada a captação de recursos e ficar no páreo com artistas famosos e que o povão ama, snif pra mim, perderei o PATROCÍNIO DE ALGUMA EMPRESA, INTERESSADA EM DEDUZIR IMPOSTO DE RENDA.

Então gente, não é porque uma EMPRESA patrocina um artista que automaticamente o artista 'mama nas teta' do governo ou defende governo. 

A própria grande antipetista organizações Globo, já teve projetos aprovados pelo MinC e recebeu recursos para muitas de suas produções, seja de filmes e minisséries. Consta na Rede, de fácil acesso, a informação que o Instituto FHC foi autorizado a captar recursos para organizar o acervo presidencial. O Instituto Raimundo Fagner, também recebeu verbas por esta via. Suzana Vieira já captou recursos, tal como Regina Duarte, Marcello Serrado e outros que figuram por aí no time mostarda e como vemos não são lá defensores do governo!

Não tenho certeza, mas acho que Luan Santana e Claudia Leite não se pronunciaram... mas que se cuidem, vão logo ser tornados petistas e defensores do governo caso se pronunciem a favor da democracia e da legalidade, tal como Letícia Sabatella, Wagner Moura, Leandra Leal, inclusive o "comprado" do Duvivier...

Inclusive, bora ver o artista 'comprado' deturpando o seríssimo trabalho das investigações da lava-jato, lembrando que quaisquer crítica em relação ao PSDB/PMDB com a realidade é só coisa de artista comprado pela Rouanet apoiando o governo para não perder a bocada...

DELAÇÃO - Porta dos Fundos



Haja paciência. 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Fabíola e a saga de ir a manicure

Até ontem, quando ouvia o nome Fabíola, me lembrava de uma querida Fabíola que conheço e ouvir o nome, me dava boas lembranças. A Fabíola é uma pessoa muito agradável.
Agora, quando ouço o nome Fabíola, me sinto angustiada. E não é por culpa da Fabíola, é por conta de uma sociedade machista que diz que machismo não existe. Por conta de uma sociedade hipócrita de moralismo seletivo.

A Fabíola ficou "conhecida" como a puta que foi pega no motel com o melhor amigo do marido. O nome do marido, alguém lembra? o nome do amigo e do cinegrafista, alguém se lembra? Poucos sabem ou se lembram. Ficou mesmo o nome da Fabíola e toda a enxurrada de palavras de baixo calão para referirem-se a ela. Justiça seja feita, muita gente elevou a bandeira e pediram para deixar a Fabíola em paz, parar com julgamentos e denunciou o machismo em todo o fato. Mas infelizmente o mundo ainda tem mais gente idiota! E a todo momento as piadinhas sem noção se proliferam pela rede.

Engraçado que o moralismo barato é tanto, que não vi #somostodasfabíola. Não, dessa vez não ia dar né? Afinal, Fabíola fez o que uma mulher nunca deve fazer. Transou com outro homem... afinal, ela foi pega pelo marido - coitado - no motel. Desse jeito não dá pra sermos todas Fabíola.
Daí as milhares de coisas que passam pela minha cabeça. Fabíola foi agredida física e verbalmente no vídeo. Teve a imagem divulgada, foi exposta e humilhada. Enfim, repito o discurso dos que 'saímos' em defesa de Fabíola. 

Retomei o caso para andar com o que a mediocridade nossa de cada dia vem causando. Depois do episódio e dos inúmeros compartilhamentos da vida alheia, do quase total silêncio acerca da truculência do marido para com esposa, a fala do marido questionando a "desculpa" de Fabíola, se torna motivo de piada. 
Segundo o marido, quando saiu de casa, Fabíola iria à manicure. E agora vejo a opressão machista proliferar-se em inúmeras piadinhas acerca de mulheres irem à manicure. Já vi de tudo... marido chamando esposa para fazer-lhe as unhas; marido levando a mulher no salão e esperando-a; marido vigiando a manicure com espingarda na mão; e marido pedindo assinatura da manicure, atestando que a mulher esteve de fato, fazendo as unhas... 
E o pior, muitas de nós, mulheres, rindo, compartilhando sem a mínima reflexão sobre o que é arraigado nesse tipo de brincadeira. Será que não percebemos que parte de uma 'liberdade' que conquistamos, se perde nessa brincadeira? Sair só para ir que seja ao salão fazer as unhas, é superação de um tempo em que o enclausuramento caracterizava a vida de uma mulher e brincamos com isso! Achamos graça do homem que nunca teve interesse em diferenciar esmalte verde água de azul e ri de sabermos diferentes tons de vermelho e conhecermos a cor nude, falar em pintar nossas unhas. E rimos do indivíduo acompanhar-nos até a manicure e esperar que façamos as unhas portando arma de fogo. Capaz que se pensássemos dez segundos sobre o que postar nas redes sociais, elas estariam fadadas ao fracasso.

Daí algumas ainda brincam quando estão ouvindo meu sermão: De repente vai ter marido notando que a mulher fez as unhas né?? Cinco segundos de pensamento são capazes de perceber: Ahhhh não, essa não vai ter, vai de algum modo denunciar que muitos maridos não prestam atenção na mulher. Ah, e é isso que muitos alegam quando pulam a cerca. A esposa não lhe deu atenção, afinal, "quem não tem amor em casa, vai procurando na rua". Mas essa regra não se aplica à Fabíola.




terça-feira, 7 de julho de 2015

DA SÉRIE: Redes Sociais - Hashtag somos todos Maju

Hashtag's tornaram-se para mim símbolo de pouca ou nenhuma reflexão. Engraçado que fui conferir a grafia para o # no Google e a segunda coisa mais procurada foi "hashtags mais usadas". Isso por si só já corrobora meu desconfiar...

Essa semana vi proliferar a marcação #somostodosMaju pelas redes sociais e como sempre me causou reflexão. A primeira foi em relação ao fato de que na mesma semana, duas notáveis mulheres foram vítimas de gente que não tem o mínimo de respeito por outrem. Refiro-me ao caso Dilma em adesivos com conteúdo sexual e desrespeitoso e ao caso de crime de racismo, cometido por inúmeros indivíduos, à jornalista Maria Júlia Coutinho. Tenho adotado como procedimento não proferir de modo citatório certas coisas, nem reproduzir algumas imagens para não proliferar tanta merda na rede. Lanço mão disso quando é absolutamente indispensável e por isso, não verás por aqui nem o adesivo nem as frases que atacaram Maju. 

Eis que nas reflexões me deparo com o pensamento: pena que a hashtag não vale para todos os indivíduos que sofrem com o crime de racismo ou afins. Vale para uns e outros. Foi preciso antes de  outros notáveis proferirem o #somostodosMaju para que muita gente entrasse em defesa da jornalista. E uma pena que a #somostodosMaju não se estende a #somostodosjoaquim, #somostodosmaria... Infelizmente os anônimos que sofrem com o crime de racismo não recebem apoio de tanta gente e tampouco afloram o sentimento de igual a ponto de fazer com que coletivamente, todos nos sintamos alguém. 

Outra reflexão que me veio foi a questão "Somos todos Maju quem?" Quantos de nós, usamos a hashtag e à primeira oportunidade criticamos o amigo negro por estar com o cabelo grande ou indicamos a amiga negra a fazer um relaxamento ou chapinha? Quantos de nós que usamos a hashtag e negamos a todo instante a nossa ancestralidade afro e ao menor sinal, alisamos o cabelo? Quantos de nós que usamos a hashtag somos mesmo Maju's? Quantos de nós que usamos a hashtag fazemos piada racista e odiamos políticas públicas que busquem amenizar as mazelas que a população negra vive? Quantos de nós que usamos a hashtag achamos a Gloria Maria feia e a Camila Pitanga uma negra linda, porque tem traços finos? 
Gente, pensa... 

Para reiterar o argumento de que a mim o símbolo # significa pouca ou nenhuma reflexão lembro a lastimável #somostodosmacacos ... vou nem me alongar nisso. 

Não bastasse o fato de algumas pessoas dar início ao espetáculo racista contra Maju, logo depois surgiram histórias que a meu ver foram meras tentativas de abafar o caso e trazer à tona coisas que pouca gente anda refletindo também e a criação de outras hashtags que associavam ao marido de Maju à corrupção e claro, ao PT, único partido político corrupto desse planeta. Com toda carga de ironia que conseguirem ler para o que está em itálico, tá!? E aí, claro, trazendo as especulações com o tema PT e corrupção, muita gente conseguiu esquecer a temática RACISMO que aconteceu com todas as evidências na busca por arrefecer um crime claro e de fácil investigação. A má fé fez até com que muitas pessoas tivessem lapsos de leitura e não conseguissem diferenciar as nomenclaturas PEPPER e PEPPR e no meio disso tudo, o que deu início à hashtag, caiu no esquecimento e continuaremos a presenciar crimes de racismo a anônimos e famosos, tendo em vista que estes, quando se cria qualquer outra hashtag são esquecidos.

Um adendo: a hashtag É pela Dignidade Feminina em repúdio aos adesivos grotescos montados com Dilma sendo penetrada por bombas de gasolina não tornou-se viral. Mais uma vez, corrobora meu argumento de que hashtag's simbolizam a mim pouca ou nenhuma reflexão. Quando não faço adesão a um #ÉpelaDignidadeFeminina lançado por uma petista, parece-me que o fato de ser algo que desrespeita uma presidente, que desrespeita uma MULHER, que corrobora com a visão que coisifica ainda mais a mulher como mero divertimento sexual, não importa. Parece que vai ser algo ao que terei de responder, pois estaria defendendo uma presidente, algo que não poderia nunca fazer já que a hashtag de ontem dizia foradilma e a chamava de piranha. 


segunda-feira, 6 de julho de 2015

DA SÉRIE REDES SOCIAIS: Zeca Camargo

Nas últimas duas semanas as redes sociais bombaram com três assuntos que me deixaram inquieta por conta de meus pensamentos acerca das coisas e da forma como aligeiramos assuntos delicados e saímos com conclusões muitas vezes, alheias.

Pontuarei sequencialmente as três tematizando: Zeca Camargo; Somos todos Maju; Turma do PRONERA - UFPR e a abertura de vagas para assentados do MST e quilombolas. Pronto, quem não tiver interesse, já disse as temáticas e podem ir.

A ideia era fazer um único post, mas agora pesquisando pra fazer mudei de ideia e serão os três temas distintamente postados.

Inicio a série respondendo a pergunta que encheu o saco na semana passada no formato mais chato ainda #quemezecacamargo
Certamente as pessoas não querem saber... mas achei válido.

Quem é Zeca Camargo?
Os comentários que despertaram raiva em muita gente fez com que inclusive eu demorasse um pouco para encontrar resposta à pergunta, tendo em vista que tudo que aparecia no Google era referente ao que muita gente achou polêmico e que virou motivo de desrespeito ao cara. (Ok, se acham que ele desrespeitou Cristiano Araújo, foi também desrespeitado e muito com a enxurrada de ofensas a ele proferidas em nome de respeito a outro... fico por entender).

Respondendo a pergunta: José Carlos Brito de Ávila Camargo é um mineiro de Uberaba-MG, nascido em 08 de abril de 1963. Formou-se em Administração pela FGV e em Publicidade e Propaganda pela ESPM, trabalhou em galeria de Artes Plásticas e foi professor de dança, tendo alguns atores famosos como alunos. Começou no jornalismo em 1987 e depois trabalhou em editoriais em Nova York, onde consta ter feito sua primeira grande reportagem, tendo Cazuza como entrevistado . Segundo a biografia, Zeca foi o primeiro jornalista a quem Cazuza revelou estar com AIDS (um ano depois de Araújo nascer). Entrou na Globo em 1996 e fez inúmeras reportagens. Esteve frente a frente com Paul McCartney, Mick Jagger, Madonna, Lady Gaga... 
Mais informações podem ser obtidas no link http://www.purepeople.com.br/famosos/zeca-camargo_p3086 não as trarei pelo fato de o que me interessa estar compilado por mim nestas informações.

Deixemos a raiva, o momento de angústia massificada pela morte de Cristiano Araújo e pensemos... Quem é Zeca Camargo. Cara, não é um zé ninguém. Não estou dizendo que o cantor o fosse tá?! Não me odeiem. O fato é que um cara que tem no currículo entrevistas com grandes (gigantes) ícones da música nacional e internacional tem todo direito de achar estranho um 'pouco conhecido' causar tanta comoção. E por acaso, isso não é de fato estranho? 

Particularmente, acho bonito nos solidarizarmos com sentimentos das pessoas, sentirmos dor pela morte das pessoas. Sinto muito e fico grilada é que essa comoção coletiva se aplica apenas há algumas pessoas e, geralmente, ligadas à mídia. Anônimos muitas vezes são até execrados quando morrem em acidente causado por alta velocidade. Lamento todas as vezes. E outro detalhe, sabemos bem que é fato muita gente virar fã depois que alguém morre como meio de identificar-se a algum grupo.

Particularmente, EU NÃO SEI QUEM É CRISTIANO ARAÚJO. Digo, não sei. Pois saber de alguém pelo simples fato de que muita gente admira e gosta mas que não consigo identificar em meio a tantos outros, a meu ver é não saber. Sei de uma música que creio que era dele porque tinha o nome envolvido em meio ao refrão. De outras, pode ser que tenha ouvido, mas não sei dizer tampouco distinguir e isso não apaga a minha história de vida, ou pelo menos, não deveria. Numa conversa em casa, comentamos sobre e os cinco presentes não o conheciam... Então, a nós, ele é um desconhecido, no máximo alguém de quem já ouvimos falar. Foi inclusive lembrado por um dos presentes na conversa, que soube da existência de mais esse cantor do sertanejo quando o cara esteve envolvido com reclamações por som alto e perturbação da ordem no condomínio onde morava... Enfim, não conhecíamos Cristiano Araújo por sua música.
É disso que Zeca Camargo estava falando e representou em pontos pelo menos muita gente que não conhecia Cristiano Araújo.

Particularmente não ouço sertanejo por vontade própria. Tolero quando vou em locais que está tocando me esforço para ignorar o que meus ouvidos captam. Não gosto e não me agrada. E digo, me agradou muito a fala de Zeca Camargo quando disse algo parecido com as pessoas gostarem de cantores de uma música só... Ok! Crucifiquem-me. Mas pelo que compreendo, Zeca me contemplou neste ponto e fiquei surpresa de esta fala ter aparecido na mídia. 

Afinal não é mesmo uma música só?? Analisem comigo: quais são as temáticas das músicas do sertanejo? Quais são os instrumentos usados? quais são os arranjos que aparecem? quais são as notas e acordes presentes? 
Tá podem dizer que eu não escuto e não posso falar nada. Não escuto em casa, os locais onde frequento muitas vezes tocam... Mas pelo simples fato de não conseguir distinguir um cantor ou dupla destas quando ouço, me mostra que são similares, muito parecidas e quicá, iguais.

E aí, lembro-me de Theodor Adorno e do fenômeno que ele descreve como estandardização. Adorno ao discutir a o gosto musical analisa que este está intimamente ligado ao que é reconhecido pelo ouvinte. Aquilo que é reconhecido, aquilo que o ouvinte já conhece em outras músicas o faz identificar-se com o que já ouviu e curta a 'novidade' em outras músicas que na verdade pouco tem de novo.
Não seria essa uma das razões pelas quais se amanhã um amigo ou parente meu que use um jeans apertadinho, tenha o cabelo baixo com um topetinho, um gingadinho na cintura, peitorais e bíceps meio avantajados, toque um violão com sequência C G Dm F e cante uma música relatando uma aventura amorosa, uma paixão fulminante ou um abandono e afogamento das mágoas na margaça caia no gosto da galera que curte uma música só??

E sendo ainda mais polêmica, correndo o risco total de ser considerada elitista e tudo mais até mesmo uma "camarguete" concordo com o Zeca quando ele comenta, de modo não muito delicado, entendi isso, que estamos empobrecidos em nossa 'cultura'. Avalio que estamos sim, com a audição regredindo como constata Adorno. Estamos com a visão regredindo, com tudo regredindo... e os responsáveis por isso são os mesmos meios onde Zeca Camargo atua... os midiáticos. Estamos a cada dia aderindo a uma 'cultura massificada' a um gosto que produzem em qualquer linguagem artística para vender e vender. Nisso, não percebemos o quanto são iguais uns e outros tanto na música sertaneja quanto no rock, no pop ou na MPB... no funk, no blues ou no jazz e por aí vai. No cinema, na literatura e por aí vai...